• Pedro Lobato Moura

Fred esperando

O pior do inferno é estar sozinho. Com alguém pra dividir, somos capazes de tudo. Fred distinguiu essa frase, em meio ao burburinho musical em que ele vinha pegando onda, as vozes dos muitos clientes do Lua Lotada, naquela noite de terça, fluindo num serpentear psicodélico, como uma faixa minimalista do Aphex Twin. Fred esperava por alguém. Carla, a garçonete que lhe servia uma cerveja puro-malte, sabia ler os olhares, deixou um segundo porta-copos na mesa. Fred usava perfume.


Fred prestou atenção a dois senhores em uma mesa próxima, um careca, camisa social azul e outro de jaqueta de couro e madeixas grisalhas até os ombros. Pareciam professores. Tornamo-nos acostumados a romper o silêncio uns dos outros, precisamos falar e precisamos de respostas. É o que o cabeludo dizia ao careca. É fácil se esquecer de que qualquer fala, qualquer interpelação que fazemos uns aos outros, um simples 'que horas são?', porra, é um assalto, é uma invasão. É, diz o careca, cheio de linhas na testa. Ai de mim, continua o outro, pergunto e espero encontrar espíritos mansos, inocentes, sempre abertos a buscar, dentro de si, as verdades mais profundas que de bom grado me darão como resposta. Mas toda pergunta é uma armadilha, da qual procuramos escapar, a que procuramos sobreviver. Toda conversa é uma ameaça. Sim ou não? Caiu na rede, é peixe. Todo professor é uma esfinge.


A música vai começar. Um senhor vem ao microfone, boa noite senhoras e senhores, um salve a ela, Daniela, com sua voz encantadora como uma flauta e sua flauta, tão bela quanto a voz. Ao violão, nosso Samuca. Aplausos. Fred termina a cerveja no copo, levanta-se, vai ao banheiro. Passando entre as mesas, escuta que




o silêncio está no meio do som.



Mijando, Fred sente-se já um pouco aceso da cerveja. Naquele banheiro todo de madeira, o vento assobiando e o piso rangendo, parecia um navio do tempo dos descobrimentos. Fred é um homem que viaja, um ser em trânsito, alguém que espera, um homem diante de oportunidades, alguém que tem escolhas. Há uma química para tudo, Fred pensa. Estou como um carro bem alinhado, recém saído da revisão, tanque cheio. A noite, o bar, são o asfalto, novinho. É claro que, a certa altura, virá o pedágio. Há uma química para nascer, uma química para morrer, pensava a toa, imitando o Eclesiastes. Uma química para dormir e uma para acordar. Terminou o jato, balançou. Uma química de desejar, uma química de estar satisfeito. Virou-se e trombou na porta. Quando a química é demais, dá-se com a física.


Meu coração é terra que ninguém passeia, cantava lindamente Daniela. Fred está de volta à mesa. Sua atenção se volta para um estudante, que conversa com outros quatro. Nossas caras, nossas peles, nossos cheiros contam histórias diversas, enquanto nossos nomes contam histórias portuguesas. Salvam-se os apelidos, Maria Moura, João Cafuso, Pedro Índio. E temos raiva e medo daqueles entre nós que insistem em manter seus nomes de terreiro, de aldeia, temos raiva e culpa perante aqueles que não se deixam assimilar. É do que é feito o preconceito, raiva e culpa, raiva e medo.


Minha honestidade vale ouro, cantava o samba. Samuca tentava imitar, ao violão, a pegada do Nelson Cavaquinho, puxando as cordas, fazendo com a mão direita ao mesmo tempo notas e percussão. A química virou, o esperado demora. Ansioso, quase frustrado, Fred sai do bar, atravessa a rua, encosta no parapeito de cimento que acompanha a encosta que leva a praia. Percebe um homem, não muito diferente dele mesmo, que olha o céu anuviado. O homem, ao sentir-se observado, sem tirar os olhos da amplidão, começa a narrar. Não muito depois que eu nasci, meus pais me encontraram na beira de um precipício, do outro lado desta ilha. Estava ali bem na quina, encarando o dia, o mar aberto, ouvindo o chamado da queda. Em minha casa havia um porão. Eu me sonhava saindo da cama no meio da noite, tateando pelo breu da casa, parando de frente para a escada, olhando lá embaixo, escutando as vozes da escuridão. Um pânico crescia em mim, aos poucos eu acordava, encostava a bunda na parede, protegendo a retaguarda. Ouvi contar que Lúcifer começou tudo assim, dando ouvidos aos sussurros que vinham além da luz. Ao adolescer, conheci Noezi, na escola. Ela não morava muito longe de mim. Sua casa tinha muitas árvores na frente, uma videira viçosa, flores de encher os olhos. Noezi vestia saia curta e suas pernas eram lindas. Ela era um tanto silenciosa, como eu, e felina. Eu a queria tanto e ficava cheio de tesão pensando nela, mas não me aproximava. Eu me impunha uma distância. Não pulava nem saía da beirada, sabe como? Viciado no medo do abismo.


Fred vê Lucas se aproximar, caminhando pela calçada do outro lado da rua. Lucas não vê Fred, entra no bar. Fred apenas sorri para o rapaz no parapeito e se apressa para surpreender o amigo. Foucault destrinchou a microfísica do poder, mas Certeau tem o olhar voltado para as resistências microbianas. Para jogar bem o xadrez, é preciso se alimentar de coisas leves. A química das possibilidades. Será possível, com uma mão, ofertar as benesses das letras e da civilização sem, com a outra, cobrir o sujeito de jugos e humilhações, sem estigmatizar, sem tomar diferenças por defeitos? Gosto de ir onde sou bem vindo. Ai se tu soubesses como sou tão carinhosa. Lucas está parado, de pé, olhando em volta, Fred toca seu ombro, eles sorriem.





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