• Pedro Lobato Moura

Microcontos

MELODIA DE FLAUTA

(para todos aqueles que pensam)

Vou escrever, que a orelha do papel tem paciência infinita. Se acaso me lê o leitor, prometo-lhe: Antes que chegue sua condução, três vezes sorrirá.

A paciência da vossa orelha, e mais, a confiança, que estas linhas não devem trair, é ouro, é gema, é doce de leite, é herança de mineiro. Hoje, tal riqueza anda nas mãos de palestrantes de má qualidade, indignos de Cícero, de Rui ou Platão. E a gente nasce com esse desejo tão honesto de acreditar... é feio tirar proveito da inocência.

Atente o leitor para fins e objetivos. De um poema, esperemos que sons e imagens dignamente distraiam a cobra que sois, que se agita e que geme.

A ESFINGE E O MESTRE ZEN

Um mestre zen vinha pelo caminho e numa encruzilhada, topou com a esfinge.

A esfinge foi dizendo, decifra-me, ou te devoro, o qu –

zap!

O mestre zen guardou a espada. CONVERSA

O ipê rosa lá per-di-casa, pelo micélio conversa com os meus paus, do muito sofrer dos habitantes terrestres. Comi uns cogumelos e posso ouvi-los. Cada árvore se torna o último reduto dos rebeldes, cada quintal um gueto, é clandestino nosso Partido do Mato Inculto.

O jatobá me lembra, com arbórea ironia, que a paciência dos paus e dos fungos pode ser que seja bem mais resistente que esse castigo chamado humanidade, mas, por poetas e jardineiras, diz que sente muito.

JESUS, HUMOR

Li que Jesus fez uma piada em Lucas, 14. Jesus está contando uma parábola, sobre um certo homem que preparou uma grande ceia, e convidou a muitos. À hora da ceia, mandou o seu servo dizer aos convidados: Vinde, que já tudo está preparado. E todos, um a um, recusaram o convite.

O primeiro disse ao servo: Comprei um campo, e importa ir vê-lo; desculpe-me, mas não posso comparecer.

E o segundo disse: Comprei cinco juntas de bois, e vou experimentá-los; desculpe-me, mas não posso comparecer.

E o último disse: Acabo de me casar, e… desculpe-me, mas não posso comparecer.

No silêncio sutil, que só quem tinha ouvidos ouviu, cintila o humor.

O LEITOR MODELO

Eis, em seu quadrado (como todos estamos), o último leitor. O último leitor de Guimarães Rosa. A última pessoa que experimentou o que é “sertão”, “sabiá”, “minas gerais”, todos aqueles termos que são, para nossos contemporâneos, indecifráveis. Sabemos português, mas somos de outro mundo.

Quanta coisa se precisa saber, para entender que Guimarães Rosa foi um gênio, um escritor eminente? Se “sempre-viva”, sem a experiência da flor na lapa alta da Serra, é só um substantivo composto...

Este ali é um especialista: Cresceu numa casa com quintal enorme (vergéis viçosos lautos de pomos tropicais, pitangas mangas cajus); viajou, na juventude, Minas Gerais e Bahia inteiras; cheirou bostas de bois e broas de fubás e rios pretos e colos de moças diversas. Estudou Grego, Germânico Antigo, Tupi e Camões.

E, olha só, aqui mesmo enquanto falamos, morreu. Que pena...

Logo mais vou-me eu e fecha-se este zoológico de leitores, velho, já... É a vida.

MENTIRA

Eu teria dois anos, punha pra dormir um ventilador, ninava ele, meu pai me disse, “não, filho, ventilador é coisa, coisa não dorme”, e eu fiquei assim, até hoje, cismado com a insônia das coisas.

DESCANSAR

“O descanso é parte fundamental do trabalho”, ou “descansar é trabalhar com outra coisa”. Do Eclesiastes II, by Salominho.

Para quem não conhece Salominho, trata-se de um dos protagonistas do dito mineiro, “Salominho, Salomão / Esse trem vai ficar bão”. Autor de um livro de aforismos que contém alguns dizeres bem conhecidos, como “tudo é ruim, o bom a gente inventa” ou “só existem, na vida, dois momentos: Agora, e na hora da nossa morte”. Amém.

Oh Salomão, Salominho

Vou saindo de fininho

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