• Pedro Lobato Moura

Crônicas

Contadas por tio Paulo e recriadas por mim.

A JACAROA

Eu e Pedro éramos amigos da Jacaroa, mãe de santo aqui do bairro. Ela era pintora, quer dizer, era uma médium através da qual espíritos pintavam. Chegava o dia certo, ela arrumava a salinha, punha lá os charutos, os fósforos, o marafo, as telas em branco nos cavaletes, esperando baixar o artista do além. O marido dela era nosso amigo, professor de física, tomava umas com a gente.

Eu emprestei à Jacaroa um disco do Manassas, precioso. E ela nunca mais o mencionou, se eu perguntava ela desconversava, a partir de um certo tempo começou a dizer aos amigos que eu havia dado o disco pra ela. Não falei mais nada.

A casa dela era bacana, tinha uns enfeites africanos, umas coisas rústicas, belos tapetes. Ela tinha também uma craviola antiga, instrumento de cordas muito bonito. Pedro, que era mais amigo da Jacaroa do que eu, um dia chegou da casa dela com a craviola, o instrumento precisava de reparos. Eu sou lutier, ela me pediu que fizesse um orçamento do conserto da craviola. Eu disse, “o preço é o disco do Manassas”.

Tenho o disco até hoje.

O MACUMBEIRO

Quando morei no bairro Asteca, havia, no quarteirão, uma casa para alugar. Eu conhecia a dona, morava ali no bairro mesmo. Um dia, um homem, bem apessoado, chegou e alugou a casa. Acontece que esse homem era um pai-de-santo. A vizinhança passou a escutar os tambores dos trabalhos na casa, todo mundo comentava o vai e vem, eram “os macumbeiros”.

A dona, ao saber disso, não gostou. Logo procurou o homem, para convencê-lo a mudar-se dali. O homem não quis: Alugou, e enquanto pagasse, seria direito seu fazer ali o que bem entendesse. Mediram forças, indiretamente. A senhora venceu: O homem afinal decidiu sair. Empacotou tudo, chamou um caminhão. Ao sair, mirou a dona, aqueles olhos de feiticeiro, e disse, “tudo bem, eu saio. Mas, de hoje em diante, a senhora não come”.

E a dona não comeu. Um mês depois, lá ia ela, internada, sofrendo de inanição.

O IRLANDÊS

Vou te dar outro exemplo: Tenho um amigo irlandês, o Derick. Certa vez, Derick e sua irmã caminhavam pelas costas rochosas da Irlanda, seguindo seu pai, um senhor alto e vermelho. O velho, que já tinha mais de setenta anos, andava na frente, altivo, pisando as pedras com passadas largas e seguras. A cabeça, erguida.

A irmã, preocupada, diz, “Pai, ande com cuidado, o senhor já não é mais um rapazão”.

Derick imediatamente sustou os passos, puxou a irmã pelo braço, esperou o pai afastar-se um pouco e ralhou, “Não diga isso! Não se deve falar assim! Veja o que você fez”. A irmã olhou: O velho agora andava arqueado, inseguro, olhando para o chão.

OS CELTAS

Derick costumava levar seu filho Daniel, molequinho, para passear pelas planícies rochosas da Irlanda. Visitavam um sítio antigo, onde volta e meia se esbarrava com alguma ferramenta neolítica ou algum artefato celta. Derick ensinou seu filho a ficar atento e um dia, de fato, o menino encontrou um objeto de pedra, talhado por mãos humanas há centenas de séculos. Levaram a relíquia para casa, o que era ilegal, mas muito corriqueiro.

Um dia um amigo da família está de visita. Derick e sua esposa recebem-no para um jantar. O amigo observa Derick socando temperos num objeto de pedra. Uma olhada mais cuidadosa, porém discreta, confirma a suspeita: É uma relíquia celta. O amigo, conhecendo seu anfitrião, nada diz, naquele momento.

Um dia em que Derick não está em casa, o amigo visita a esposa. Acaba surrupiando o objeto, no mais puro instinto patriótico e científico: Doa ao museu.

É claro que nosso amigo Derick, irlandês orgulhoso e decidido, descobre a peça no museu, quando ele e o filho faziam um passeio de domingo. Derick processa o museu, entram em um longo litígio, o amigo é forçado a confessar o roubo em juízo, um crime diante de outro, o juiz não se decide.

Cinco anos depois, Derick consegue reaver a peça. Está na família até hoje, na casa do filho Daniel, ajudando a temperar as carnes.

AS CRENÇAS

Tudo isso porque falávamos em crenças. Assim como os brasileiros, os irlandeses são muito supersticiosos. Crenças do arco-da-velha e crenças modernas: Derick acredita que as máquinas e os planos apreendidos pelo governo americano no laboratório do Nikolas Tesla serviram, entre outras coisas, para fazer uma arma capaz de alterar o próprio clima da terra.

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