• Pedro Lobato Moura

Crônicas

"Bora secar a água da onça"

mineiro indo trabalhar

Rabi João Zi e o Mestre dos Mestres

O rabi João Zi já morava ali, quando se instalou, no mais alto da montanha, o Mestre dos Mestres. Na longa estrada que vinha da vila, subindo a montanha, e ia ao Mestre dos Mestres, a certo ponto havia uma trilha lateral, que levava à cabaninha do rabi, perto do lago. Os peregrinos agora vinham, subindo e descendo por aquela estrada outrora tão erma, e às vezes pegavam a trilha e chegavam à cabana do rabi. O rabi servia-lhes chá, enquanto tomavam fôlego, admirando o lago e, embora nada cobrasse, o rabi aceitava, quando oferecidas, algumas moedas pela hospitalidade.

Certa vez, um peregrino comentou que o Mestre disse: “Sim”. Outro, porém, comentou que o Mestre disse: “Não”. Rui, companheiro de pescaria do rabi, observou: “O Mestre me parece contraditório”. Então, o rabi foi ter com o Mestre.

Na casinha do Mestre havia um jardim. Conversaram sobre plantas. O rabi sentiu-se à vontade. O Mestre o fazia lembrar alguém da sua infância. O rabi questionou o Mestre, sobre sins e nãos. O Mestre não tinha uma doutrina pronta. “Tem gente que precisa ouvir sim, tem gente que precisa ouvir não”, disse o Mestre.

O rabi pegou sua violinha e cantou:

Terra e, ao mesmo tempo, semeador

Terra roxa às palavras do Senhor

Terra e, ao mesmo tempo, semeador

Recebendo, nutrindo, dando amor

O sal da terra, o de bom que a terra tem

De ser adubo não escapará ninguém

No seio da terra formam-se cristais

Do mais perfeito se vê através

No Palmital

Nós viramos naquele beco e estava cheio de gente, nas calçadas as mães as tias os avôs, no meio da rua estreita os meninos no futebol e uma menina maior, chapada, chuta uma bola de couro verde bem na minha cara, e eu desvio sem pensar, no triz, preciso, e sorrio, e a menina diz “foi mau aí tio”, acho que ela queria ter acertado, meu amigo Ed diz, “é, Pedrinho, cê já ia ser batizado na favela, mas parece que você já é, né?” E eu só rindo.

Bentolomeu

Respeite as rugas de Bentolomeu, os dedos finos. Um dia ele entrou no salão, no tabernáculo. Sabemos que não havia ouro e prata ou tudo aquilo que está no livro sagrado - eu não posso crer que houvesse nem mesmo aquele Jeová geopolítico que está no supracitado. O que havia, no entanto, não descreveremos – ouro, prata, gemas, luz, raio, poder, deus, sagrado, são as metáforas mais empregadas. Bentolomeu, um dia, entrou no tabernáculo. Mas esse um dia foi há muito, muito tempo. A lembrança de um sonho. Por isso ele parece meio tristinho, em busca de algo que não existe nesse mundo.

#crônicas

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