• Pedro Lobato Moura

As Aventuras de Martim Parangolá no Brasil

As Aventuras de Martim Parangolá no Brasil

Contação de Pedro Lobato Moura, misturando histórias de livros e de boca a boca, e algumas cantigas.

Lá fora apitou o navio

Ele apitou e tornou a apitar

A barra está toda tomada

dos marinheiros de Martim Parangolá

Martim Parangolá era um jovem lisboeta que gostava de aventuras. Seu pai fora capitão de navio, como seu avô. Martim ouviu falar de guerra - na colônia de Vera Cruz, contra os gentios pagãos e canibais. Aventuras e riquezas possíveis no Novo Mundo, América.

Eu viajei, camarada, o mar inteiro

Ah, eu remei, camarada, o mundo inteiro

Água salgada, meu mano, que me criou

Eu vim do mar, camarada, pro mar eu vou

Martim juntou uma turma, quatro amigos seus, e armou cinco caravelas, uma chefe, as outras menores. Tudo de boa madeira e cannabis. Iam se juntar a um exército, sob a chefia de um outro Martim, xará, Martim Afonso de Sousa. Enfrentariam gentios tupis da enorme Ilha de Vera Cruz, rebelados, organizados em uma confederação, dita dos Tamoios, que em tupi, quer dizer “os mais velhos”, os primeiros, os originais. Aos índios os franceses aliados, querendo fundar uma França Antártica.

Os Portugueses tinham também seus índios aliados, mas vinham sofrendo derrotas e agora el-rei mandava um capitão de verdade, com grande frota, para dominar de vez, para Deus e a Coroa, a terra sem fé, lei nem rei, o futuro Brasil.

Gente que vem de Lisboa

gente que vem pelo mar

Laço de fita amarela

na ponta da vela, no meio do mar

Os capitães das naus menores: Don Pedro, Don André, Mestre João e Manuelito. Dons Pedro e André, irmãos como na bíblia, homens rudes e fortes. André seria colono, pai de mamelucos muitos. Pedro, mais militar, ia se casar em Portugal, criar cabras e oliveiras montado no seu butim. Assim queriam que fossem tecidos os seus destinos. Manuelito era um homem de luzes, desenhista, observador, curioso, falador. Estava mais para estudar que lutar, mais para assimilar que conquistar. Era o homem dos astrolábios, das bússolas e dos mapas. E, por fim, havia Mestre João, tenaz marinheiro, sabedor do tempo e das manhas do mar, homem de caráter e fibra, quieto e atento. Possuía, contudo, um segredo: era mulher.

Marinheiro é hora,

é hora de ir trabalhar

É pau, é chuva, é pedra

Marujo nas ondas do mar

Chegaram ao litoral brasileiro, em algum lugar mais ao sul da Bahia de Guanabara, no caminho para a futura vila de São Vicente. Vieram ouvindo e contando histórias, dos guerreiros nus que comiam gente, do terrível Cunhambebe, chefão dos Tamoios, e de suas guerras sangrentas contra os Tupiniquim, um outro povo gentio que era aliado dos ditos “Peros”, que eram os próprios portugueses. Contavam que Cunhambebe assaltava de canoa os navios dos peros, e saía carregando canhões nas costas. Martim Parangolá duvidava... Diziam que os tupinambá tatuavam o corpo, uma cicatriz para cada inimigo devorado: Na superfície de Cunhambebe não havia mais espaço. Cunhambebe quer dizer “o de fala mansa”, o que fala que nem moça. Homenzarrão de voz fina e arrastada, certa vez um emissário dos franceses riu-se ao ouvi-lo falar. Cunhambebe esmagou sua cabeça com o tacape.

Artilharia já saldei

Lá na ribeira deu sinal

Seu marinheiro aguenta o leme

E não deixa o barco virar

O sol se pôs e as caravelas ficaram ancoradas a algumas centenas de metros da praia. De noite, lua cheia, com seu claro sinistro, os homens beberam, cantaram, cartearam. Pedro lia mapas, André traçava planos, Manuel consultava velhos anais em grego. Mestre João e Martim fitavam a tortuosa costa, observando a noite de prata imóvel. Conversavam em silêncio. Martim pensa que viu uma sereia. Mestre João: “Vê-se o que se quer”. Martim, em pensamento, completou: “E de tudo haverá...” Mestre João: “Vou cochilar. Esteja atento: este silencio me preocupa”.

Majuro bebe na boca do garrafão

Pisa de pé em pé pra não cair no chão

Marujo bebe na boca do garrafão

Samba a noite inteira com a garrafa na mão

Noite mais funda. Martim sonha, uma voz que canta. Ele está de pé sobre uma rocha, no meio de um mar congelado, e escuta a voz, ora perto, ora distante.

A onda me trouxe, o vento me leva

Quando a onda passar, eu me sento na pedra

Martim está confuso e sente frio, chama pela voz: “Quem é você?” Aproxima-se dele uma moça de olhos orientais, pele de estranho lustro. Martim sente emanar dela um calor, que é como deitar numa tijela de leite morno. Ele agora está numa campina, escuta música, baila com a moça, juntam-se a eles outros seres estranhos, vão numa dança circular, pisando a relva.

Eu sou bem pequenininha

Moro no morro de areia

Minha rede balanceia

Eu sou pequenininha de mamãe

Moro no morro de areia

A moça fica de frente para Martim, olha para ele, sorrindo, mas sua expressão logo muda, fica séria, ela abre a boca e tem dentes pontiagudos, manchados de sangue escuro. Martim acorda com gritos de terror vindos lá de fora: Suas caravelas estavam sendo atacadas. Martim sai para o convés e constata que já todas as velas estão em chamas, ateadas pelas flechas da costa atiradas, e uma já é assaltada por canoas em que cabem mais de vinte índios. Os marinheiros atiram com os lentos arcabuzes, mas para cada um nativo que abatem, dezoito conseguem chegar ao navio e escalam e escalpelam.

Martim, Manuel, André, Pedro e João pulam num bote e fogem para a costa, vendo seus homens lutarem, alguns fugirem a nado ou em outros botes, todos desesperados. Uma canoa menor, com dez índios bravos, percebe a fuga e decide perseguir o grupo. Lançam flechas que zunem e quase acertam, e gritos de arrepiar.

Entre atirar e fugir: a canoa do índio é mais rápida. Porém, tiros bons de Pedro e Mestre João abatem quatro deles, e os outros decidem abandonar a perseguição, voltar para as caravelas, jantar mais farto e certo. Martim e seus amigos suspiram aliviados vendo os índios indo embora.

Rema a canoa, marinheiro

Rema a canoa, devagar

Esta canoa só foi feita

Pra Martim Parangolá

Remaram, remaram, entraram num mangue, o sol nasceu, subiu, e os devoravam mosquitos. Por todo o dia, procuravam terra firme, por entre o labirinto de plantas que insistia em barrar-lhes o caminho. Deram com uma serpente de mais de cinco metros, mas que não os molestou. Admiraram sua pele de escamas da cor do ouro e do marfim. Enfim, conseguiram encontrar terra firme, árvores, chão. Já era quase noite. Andaram um pouco mata adentro, densa floresta, para longe das malárias de beira brejos. Acamparam, fizeram fogo. Noite de medos, barulhos, mil olhos, presença invisível do nativo e do jaguar.

O dia seguinte começou com forte chuva: molharam-se até os ossos. Praguejavam, mas no final da tarde, o sol já lhes havia secado novamente, também até os ossos, que doíam. Caminharam mais adentro na terra das palmeiras e dos papagaios, matas, rochas, subida da Serra do Mar.

Na próxima noite, escutam música ao fundo, música estranha, monótona, de flautins e gemidos. Vem das brenhas da mata. Sorrateiros vão atrás, veem luz, por entre os ramos espiam: festa de encantados. Mascarados dançam, homens tocam chocalho e entoam cantos, outros fumam feito mouros e cobrem tudo em névoa cheirosa. Martim lembra do sonho. Vê três mulheres nuas, que parecem surgir da fumaça e dançam no meio dos mascarados. Uma tem cor de mel e abelhas a cercam, uma é roxa feito a uva, seus cabelos muito negros, e outra é furta-cor, etérea, mulher de beleza abstrata, delirante.

Maré encheu, maré vazou

De longe, muito longe eu avistei Arara

A sua casinha coberta de sapé

Seu arco, sua flecha, sua cabacinha de mel

Absorto estava Martim na visão sublime das encantadas quando um dos pajés, que regia tudo no bater dos maracás, interrompe a música com uma chocalhada mais forte, e olha Martim bem dentro dos olhos, fazendo seu coração querer saltar da boca. De repente, são gritos e estrondos, luzes e raios, Martim não sabe de nada, só corre desembestado.

Quando cai em si, está só na mata escura, sem fôlego nem para chorar. Não acha mais sinal de gente.

Vaga Martim por semanas, escapa de cobras e lagartos. Consumido pela sede, bebe o resto de um garrafão de vinho que guardava, fica bêbado, apaga, e acorda depois de ressaca, com dor de cabeça e mais sede ainda. Custa a encontrar água boa de beber. Custa a aprender a caçar paca e cutia, e não reconhece as frutas que encontra. Quase toda noite, sonha com as encantadas.

Até que um dia, dá numa praia, e vê um grupo de portugueses que desembarca. Junta-se aos patrícios, pensa que folgará, abre os braços, mas eles, desconfiados, logo o amarram. Não são homens de el-rei, são livre iniciativa. Dorme esta noite atado a um licuri, ouvindo os homens beber, cantar e caçoar, com pouco mais que meio caju no pandu.

Martim pescador, que banda é a tua?

Bebendo cachaça e caindo na rua?

Eu bebo minha cachaça, eu bebo muito bem

Bebo com meu dinheiro, né da conta de ninguém

De manhã cedo, os portugueses se armam e saem, deixam Martim atado no pau. No meio da tarde, Martim dormitava quando dos matos surge uma cunhã, menina nova, sorrateira chega, busca uma faca nos terens de cozinha, corta a corda, sem nada dizer, pede que Martim a siga. Martim vai atrás da mocinha nua. Correm por trilhas sutis mata adentro e param antes de um descampado grande. No centro deste, uma aldeia, a enorme maloca comum incendiando, gritos lacinantes, aqueles mesmos portugueses arrancando as crianças dos colos das mães, que choravam, imploravam, de joelhos, seus nativos parentes homens já quase todos mortos, os corpos desfigurados de tiros e facadas. A maioria, muito jovens ou velhos: os adultos deviam estar fora, na grande guerra.

Martim se deixa penetrar pela tristeza, pela aflita pergunta nos olhos da menina. Ela arranca um fruto de um pé de urucum, quebra a casca peluda, esmaga as sementinhas e pinta com os dedos o rosto de Martim. Ele entende, tira a camisa, agarra o tacape de um índio caído ali perto, dá um grito selvagem e sai à luz, Martim vira-folha, Martim convertido, para matar os brancos ímpios. Martim Parangolá virou índio.

Quem te ensinou a nadar?

Foi, foi marinheiro

Foi os peixinhos do mar.

Ê nós, que viemos de outras terras, de outro mar.

Temos pólvora, chumbo e bala, nós queremos é guerrear.

Se verdade ou mentira?

Talvez nenhum dos dois

E o resto da estória

Eu deixo para depois.

Que foi um cantador

Quem me disse assim:

Que a maior das mentiras

É esse tal de FIM.

NOTAS

Para fontes dessa história, ver:

Meu Querido Canibal, Antônio Torres. Crônica Trovada, Cecília Meireles. Biografia de Tadeo Isidoro Cruz, conto de Jorge Luis Borges em O Aleph.

Os versos são populares canções de marinheiros da umbanda e do congado.

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