• Pedro Lobato Moura.

Acaiaca (uma história real)


Está bem, vou contar-lhes uma história de fantasma.

Uma história real.

1.

Todos conhecem o edifício Acaiaca? Pertinho da praça Sete, Belo Horizonte, MG?

Em 1942, quando foi construído, era o maior edifício do centro da cidade.

Esculpidas no granito, duas enormes caras de índio ornam a construção de 30 andares. Nos anos 80 e 90, funcionava no térreo o Cine Acaiaca. Vô Lobato gostava de pegar seu voyage e me levar para ver filmes ali. Hoje, no lugar do cinema funciona uma Igreja Universal.

Em 1999 passei no vestibular para cursar Belas Artes na UFMG. Tinha então vinte anos de idade. Com meu pai sequestrado por piratas, vivíamos - eu, minha irmã mais nova e mamãe - no aperto financeiro, sustentados pelo salário pouco de nossa mãe professora de inglês. No Edifício Acaiaca, em 1999, funcionava a Fundação Mendes Pimentel – FUMP, que financiava alunos carentes das graduações da UFMG. Eu fui pleitear uma bolsa. Era vida dura, juntar documentos, enfrentar-me a mim mesmo e minha inaptidão total para as burocracias.

No primeiro dia de visita, sou o único na fila do elevador, que sobe lentamente e range. O ascensorista comenta algo sobre um recente suicídio. “Aqui em Beagá?”, pergunto. “Sim, aqui, neste prédio! No Acaiaca... Um pobre rapaz...”

Voltei ao Acaiaca algumas vezes mais. Assina daqui, autentica de lá. Um dia ouvi, na mesma fila do elevador: muitos suicídios no currículo do edifício. É uma certa loja, dizem. Nunca está ocupada. Quem a aluga, rápido se muda. Os negócios lá não prosperam. As pessoas entram lá por curiosidade, encontram-se com o Acaiaca – a alma vingativa do índio! Apavorados, pulam.

Neste dia, a falta de um carimbo me fez perder a viagem. Na minha imaginação, índios tupinambás entoavam loas em minha mente enquanto moqueavam a atendente.

Chovia quando retornei, carimbado, uma semana depois. A Universal havia enchido o hall de luzes vermelhas para um ritual de descarrego. Eu remoía confusos pensamentos, e quando saí do escritório da FUMP, finalmente apto a uma bolsa, tomei as escada ao invés do elevador, subi ao invés de descer e resolvi andar a esmo pelos corredores daquele edifício. Dei com a tal loja vazia. A porta estava aberta.

Era uma sala pequena e estava sem nenhuma mobília. Empoeirada. Uma janela à esquerda, no fundo uma porta para um banheirinho. Mijei, puxei a cordinha da descarga, nenhuma água desceu. Sentei-me no chão da loja, pernas cruzadas, coluna ereta. Procurei a respiração abdominal. De olhos fechados, invoquei, murmurando, “ó Acaiaca, ó cacique, se mostre, se identifique!” Demorou um pouco. Então senti um cheiro de fumaça, ervas queimadas. Quando abri os olhos, tudo estava nublado e diante de mim, um borrão, que aos poucos ia se focando na figura de um índio, peladão, com um alto cocar de penas na cabeça, fumando um cachimbo maior que seu braço. Ele olhou para mim com olhos ferozes e gritou: AAAAAARGH! Embora eu tremesse, eu não tinha (eu pensava, aos vinte anos) nada a perder, então fiquei firme em meu lugar, e fiz um gesto de aprovação, como quem diz, “Firmeza, mano. Boto fé”. Acaiaca disse: “Branco não ter medo de mim?” Eu menti: “Não, senhor.” “Ara, desde agora serei teu amigo. Andarei do teu lado direito!”.

E assim, passei a ser assistido - muitas vezes confundido - pelo espírito do bravo e nobre pajé e cacique Acaiaca (eu assim o chamava: ele nunca se nomeou).

2.

Em 2010 meu pai estava de volta na cidade. Contou-nos que estava ilustrando um livro de sua tia Isaura, já velhinha, chamado “Diamantes de Minha Memória: Diamantina Ontem e Hoje”. Fui visitá-lo. Estava em cartaz nos cinemas o filme “Avatar” de James Cameron, e eu intentava convencer meu pai a irmos juntos. Sua sociofobia não deixou. Papeamos, lanchamos, e levei o livro de tia Isaura emprestado. Sem vontade de voltar para casa (nesse tempo eu morava sozinho), decidi gastar uns reais e ir só à sessão de Avatar, num shopping qualquer.

No ônibus, abri a esmo o livro de tia Isaura. E li:

“Em uma visão lendária do início da colonização daquelas terras, Joaquim Felício dos Santos, citado por Aires da Mata Machado Filho, recolhe a seguinte história:

Os índios andavam longe, festejando o casamento de Cajubi com Iepipo. Reinava completa alegria no festim. Alheio a tudo, o cacique só tinha ouvidos para estranhos ruídos distantes, que lhe entristeciam o coração pressago. Estampido mais intenso acabou de convencê-lo. Era chegado o momento. Conclamou para luta os seus guerreiros. O inimigo certamente os havia atacado. Encontraram, no Itibira, a explicação do estranho ruído: a Acaiaca jazia por terra. Tomás Bueno, o mameluco, traiu o sangue dos antepassados, revelando ao branco o segredo da tribo. Sentiam-se perdidos. Enquanto Carurupeba meditava, Jupiçara, clamando por vingança, soltou o grito de guerra. Protestou o chefe contra aquela voz que se levantava em vez da sua. Infiltrou-se a revolta. O ódio fratricida aniquilou o valor dos guerreiros que se trucidaram ferozmente. Maus agouros levaram ao pajé o aviso da ruína. Quando o velho Piracassu chegou ao Itibira, no chão juncado de cadáveres restavam poucos guerreiros puris (…) voltando-se para o arraial amaldiçoou os perós (homens brancos): 'Tupá nos abandonou. Tupá entregou-nos ao inimigo, despedaçando nossa raça. Aí vem a torrente impetuosa (…), segue-se uma longa maldição em tom épico-bíblico (…) Maldição sobre vós e vossos filhos, a vingança de Anhangá será terrível. Vamos guerreiros, que das cinzas da Acaiaca surjam as desgraças dos perós.' (…) E com gestos rituais, ateou fogo ao cedro sagrado. Seguiu-se um aguaceiro diluviano. Nos enormes desbarranques levou a cabo numa noite o trabalho de meses. Nos serviços, assim completados, o ouro era fácil de apanhar. Também apareceram pedrinhas rijas, brilhantes, transparentes, ordinariamente cristalizadas na forma de octaedro. Os mineiros jamais as tinham visto. Era o diamante, carbonização da Acaiaca, a árvore sagrada dos puris. (MACHADO FILHO, Aires da Mata. Arraial do Tijuco: cidade de Diamantina. SP , USP , 1980)

Conta a lenda que nas chamas do cedro, ou seja, nas chamas da Acaiaca, os indígenas se atiraram, promovendo suicídio coletivo.

Aqui em Belo Horizonte, em um ponto central e comercial, foi erguido um prédio por um diamantinense em homenagem aos puris – o edifício Acaiaca. Nele vê-se, bem no alto, esculpida, a imagem de um índio.”

(GONÇALVES, Isaura de Carvalho. Diamantes de minha memória. BH. Ed. da autora. 2010.)

Ora, Acaiaca não é o nome de um índio, mas de uma árvore... Olhei pela janela do ônibus: meu ponto chegou.

Desci e fui ao cinema, no terceiro andar de um certo Mall.

Entrado no cinema, estranhei que, numa sessão disputada, uma cadeira ficasse vazia. De fato, não era um bom lugar - no canto, à minha direita uns dez lugares, e duas filas atrás de mim. Mas o cinema estava lotado, exceto por esta cadeira. E tome três horas de Hollywood. Sempre gostei de histórias com natureza, pessoas puras e selvagens. Identifiquei-me totalmente com os aliens azuis do Avatar. No final, quando os americanos de queixo quadrado com bombas destroem a árvore sagrada dos aliens azuis, eu fiquei triste, com os olhos rasos d´água como dizem lá em Mangueira. E quando deu tudo, é claro, certo para nossos heróis, eu olhei para o lado - por instinto, nem pensei, olhei e vi: Meu amigo alma de pena, sentado na cadeira que há pouco estivera vazia, chorando rios e fazendo que sim com a cabeça, a mão direita fechada, batendo no peito. Eram gestos de gratidão para a tela. Foi aí que me dei conta da semelhança do filme com a lenda que lera no ônibus, no livro da tia Isaura. Até mesmo a árvore sagrada, a presença do traidor, a motivação mineira. Em Hollywood, no entanto, tudo termina bem para os nativos.

Fui ao banheiro, depois da sessão. Quando me vi sozinho, lavando as mãos, Acaiaca se materializou, embaçando o espelho com sua fria fumaça espectral. “Irmão, obrigado! Esta noite, tu mostrô a mim a luz! Agora sei que, em nova forma de arte, o canto do meu povo está contado, e sua bravura veramente representada. Assim, as futuras gerações não nos esquecerão! Mim grato por isso, irmão - Por revelar!” E sumiu, subiu com um estalo. Não entendi nada, mas fiquei com uma sensação de leveza...

#conto #acaiaca #memórias

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