Miração

 

 

"Que coisa incrível! Essa planta… você come e ela diz se você é uma pessoa boa ou ruim!"

Chester, em "O Monstro do Pântano", de Alan Moore.

 

"CAO - Só os pajés e as pessoas que vão se tornar pajés é que podem tomar o kamarãpi?

MOISÉS - Não, qualquer pessoa que quiser tomar, toma. Agora, a pessoa mesmo é que decide, ela mesma é que vai crescer ali dentro."

Moisés Ashaninka, em entrevista na revista Bundas.

 

Meu pai e minha mãe foram hippies, um casal de doidões. Meu pai foi um tanto longe em alguns de seus transportes báquicos, então meu avô, o velho Andrada, que era comerciante mas gostava de usar máscara de general, costumava me inspecionar, como se quisesse farejar em mim algum traço de loucura. Eu seguia sendo um cacetinho normal, como o mesmo Andrada gostava de dizer. Um menino bonzinho, bom aluno, comprava revistinhas com o dinheiro que meu avô me dava, "a única forma que seu avô conhece de demonstrar afeto", dizia Kora, sua filha, minha mãe.

 

Um dia, um mendigo me abordou. Eu devia ter uns treze ou catorze anos, seguia com primos para um sanduíche com coca-cola, discutíamos videogame. O mendigo, ao passar por nós, olhou-me nos olhos e perguntou, "cê quer ir fundo, fundo mesmo? Toma o Santo Daime!" Nunca tinha ouvido falar daquilo. 

 

Aos dezenove, veio tudo de uma vez, decepção amorosa, maconha, ácido, paranóia. E no meio daquilo, me veio de novo essa expressão, Santo Daime, o chá mágico da Amazônia. Então, com vinte e dois anos, resolvi ir fundo. 

 

Digitei "Santo Daime" na internet, apareceu o telefone de uma terapeuta holística. Liguei, marquei na casa dela, um apartamento no bairro Sion. Era uma senhora de pele acobreada, anglo cabocla, entrando nos 50, um pouco grisalha, sem maquiagem. Era formada em psicologia, mestra em estudos junguianos e era também mãe de santo de um terreiro de umbanda em Pará de Minas. Seu apartamento era bacana, zona sul, porém com o mobiliado simples, tudo mais rústico, natural, com samambaias e begônias. Ela pôs cartas pra mim, gostou lá do que viu, disse que eu devia participar de um trabalho na casa dela, em Pará de Minas. O trabalho ia acontecer daí a vinte e um dias. Ela trabalhava com a doutrina do Daime e com a Umbanda. Deu-me as instruções, pega o ônibus rumo a Pará de Minas, avisa ao motorista que vai descer antes, no quilômetro tal, segue a estradinha de terra. Para tomar a bebida, eu deveria respeitar um jejum, três dias sem álcool ou outras drogas, sem sexo, sem carne ou alimentos industrializados.

 

Fui. No terreiro, antes de começar a cerimônia, a mãe de santo defumava os presentes. Quando chegou minha vez, baixou nela uma cabocla velha. A cabocla pôs a mão sobre o meu plexo solar, sem me tocar. Só senti o calor. Ela disse que eu tinha um bom coração, que Iemanjá estava me abençoando e que ia me dar uma rosa.

 

Defuma, defumador

Essa casa de Nosso Senhor

 

Aconteceu a gira, até de madrugada, tudo muito forte e bonito. Tomei a bebida, vomitei até as tripas e depois me senti leve. Amanhecendo o dia, antes que eu fosse embora, a mãe lembrou-se da promessa do encantado, da velha cabocla d'água. Buscou uma tesoura, cortou uma rosa vermelha de um viçoso roseiral e me deu. Eu era tão carente, dei um valor enorme para aquilo.

 

Um ano depois, em 23 de junho, fui no Daime, em um trabalho oficial da doutrina no Mestre Irineu. Seriam oito horas de hinário, atravessando a noite junina.

 

Estou aqui, eu vim para dizer

Estou aqui, eu vim para ensinar

Eu digo para todos meus irmãos 

É numa noite de São João

Que vamos se transformar

 

Lá pela metade do trabalho, a força me pegou, ao mesmo tempo que deram um intervalo no bailado. Enquanto os participantes se dispersaram para relaxar, curtir a fogueira, eu me sentei no salão e encarei o que me vinha. Primeiro, a serpente, um túnel de luzes, a força me tomando o corpo todo, eu tremia na cadeira. No princípio dá medo, a gente diz, "vou correr", mas, se temos boa vontade, boa fé, logo nos corrigimos, alinhamos a postura, a respiração. Eu escutava as palavras do hino do mestre, "Ripi, ripi iaiá, se você não queria, pra quê veio me enganar?"

 

Então, de repente, eu estava lá. Naquele reino, o Reino. E vi: Ela. Ela veio, sentou comigo, pôs a mão em mim, pôs a mão dentro do meu peito. Conta-se, na tradição acreana, que o mestre Irineu mirou uma mulher que desceu do céu numa barca que flutuava na luz da lua e perguntou, "Quem sou eu?", ao que o mestre respondeu, ''a senhora é uma Deusa Universal". Ela gostou da resposta e entregou ao mestre uma laranja, que representava o mundo, que o mestre deveria doutrinar, com muito amor, disciplina e chá de Oaska. Mirando, eu estava como que no calo do dedo mindinho da mão esquerda do mestre Irineu, um preto gigantesco, e ali naquele cantinho já era muito céu pro meu coraçãozinho, e de repente Ela me deu a rosa, meu coração era de terra e Ela plantou uma rosa ali, ou talvez a rosa já estivesse plantada, Ela fez brotar.

Eu era, até então, desafinado. Ela mexeu, apertou uns parafusos, untou umas rebimbocas em mim, eu comecei a me afinar. A servir para a poesia. Sou eternamente grato.

 

A ayahuasca, o chá do Daime, é feito de um cipó misturado a folhas de um arbusto e água. Esse arbusto é chamado de Rainha da Floresta, e os botânicos explicam que contém DMT, molécula que provoca as epifanias. Então Rainha é ao mesmo tempo a planta e a mãe-da-planta, que é irmã da mãe-d'água e filha da mãe-da-vida. Quem for de ouvir, ouviu.

 

A rainha me fez chorar

E chorando eu compreendi

Compreendendo eu sorri

E sorrindo eu segui