Jaqueline

 

O RIO

 

No ano de 1988 minha família mudou-se para Santa Luzia no bairro Morada do Rio, no conjunto de baixo, exatamente seis casas antes do campo na beira do rio. Tínhamos muito medo do rio encher e subir até as casas, mas as pessoas falavam que isso não poderia acontecer, pois as casas ficavam afastadas do rio. No ano de 1995 choveu muito, tanto que ameaçaram abrir as comportas da Pampulha, mas mesmo assim não acreditaram. Foi aí que aconteceu, tiveram que abrir algumas comportas e a água veio com força, arrastando tudo o que tinha na frente, descia de tudo na enxurrada, até porco, fogão, botijão de gás, geladeira, sofá, arrasando os muros das primeiras casas e levando o que tinha no quintal. A casa de Baby tem dois andares, a água chegou no segundo andar; a casa da minha amiga Fernanda subiu água até o teto, tivemos que nadar para salvar alguns objetos, inclusive as garrafas de whisky boiando. Muita gente ficou no prejuízo. A água chegou até a casa da minha mãe, para atravessar para a parte alta tinha que ser de barco, o carro do meu irmão que estava no posto beira-rio desceu na enxurrada. Foi um arraso, muito prejuízo para todos.

 

Graças a Deus não se repetiu, mas ficamos apreensivos pois agora também existe a possibilidade da barragem de rejeitos de minério de Raposos e Nova Lima se romper e atingir o Rio das Velhas, lamentavelmente.

 

O TREM

 

Quando mudamos para o conjunto, foi tudo novidade, aqui era muito diferente da “cidade” (é como chamávamos Belo Horizonte), aqui era considerado “roça” pois ainda existiam fazendas, muitas construções antigas. O trem era uma atração, quando passava contávamos os vagões, chegamos a contar 280 vagões. De vez em quando os moradores da região abriam as porteiras para que as vacas saíssem e, quando eram atropeladas pelo trem era uma correria, as pessoas saíam de suas casas com facões e facas, todo mundo queria um pedaço fresco.

 

Dizem que, na direção do conjunto de baixo, a linha do trem foi feita em cima de um muro de pedra que foi construído pelos escravos. Na linha do trem sempre foi um perigo, até minha filha já presenciou a morte de seu colega com uma pedrada na cabeça. As crianças sempre pegam carona no trem, meu filho numa dessas rasgou sua testa, que susto.

 

O trem é um bem necessário, pois faz a travessia de diversas cargas úteis para nosso consumo.