Herança

Meu avô sempre diz: "Ser louco é pra quem pode, não é pra quem quer".

 

Vozes

 

Segundo Platão, Sócrates, em suas investigações, interrogou os poetas sobre a arte da poesia. Concluiu que os poetas, assim como os profetas, nada sabem sobre a arte que exercem, mas são inspirados, recebem das Musas seus dons. Chamou de loucura, mania divina, tal inspiração. O próprio Sócrates diz que ouvia uma voz sobrenatural, que lhe dizia apenas o que não fazer.

 

Muitos parentes meus bem sabem o que é isso: Meu avô, o velho Andrada, conta, em seu cínico tom, sobre um primo nosso, escritor de um livro em coautoria com Nossa Senhora. Meu bisavô, Melião Bento, pai de minha avó materna, mesmo depois de se tornar um conhecido pastor presbiteriano, comunicava-se com o além. Dizem que um dos filhos dele, tio Lutero, ceia com etês.

 

Tio Pedro

 

Eu tenho um tio chamado Pedro, irmão da minha mãe. Ele hoje se encontra do lado de lá.

 

Meu tio Pedro contava piadas, perguntava charadas e desenhava jogadas.

 

Sentava com seu corpão, abraçado ao violão, e entoava: “Eram duas caveiras que se amavam...”

 

Escreveu um livro de poemas, inédito, “O lago dentro do homem”.

 

O cantor

 

Galo cantou à meia-noite

e o cantor dormiu.

E de manhã galo cantou 

e o cantor se acordou.

 

Não era o mesmo cantor, 

nunca dormiu, nunca acordou.

Galo cantou.

 

O sonho

 

Então, tive um sonho. Estávamos na sala da casa da vovó, os tios, minha mãe, meu avô, alguns outros parentes e contraparentes... A mesinha de vidro no centro, com o pequeno candelabro de Israel... O órgão ali, os sofás... Havia briga, disputas de família, aqueles momentos de acerto de contas, todos se acusavam... foi quando, ali mesmo, notei o funeral.

 

Era no chão, num cantinho afastado da sala. Ali estavam duas meninas, velando um corpo, rezando uma ave-maria. Chego mais perto, percebo que o corpo é, na verdade, uma espécie de bastão. Olho mais de perto ainda, é um pedaço de pau de goiabeira com umas fitas amarradas, algumas medalhinhas, repousando numa caixa de sapatos forrada com panos. Olho para uma das meninas, ela está cantando hinos, séria, lendo num caderninho. Deve ter uns doze anos. Me oferece o caderninho, pedindo para eu cantar com ela. Tenho um violão nas mãos, coloco o hinário na minha frente e tento ler as letras.

 

A indesejada

 

Não sei se foi um pouco antes, um pouco depois: Tio Pedro morreu, perto de completar 60 anos, de leucemia. Deixou duas filhas. Não sei se eram elas, no sonho, as meninas cantando hinos. Mas a sincronia toda me marcou, havíamos nos aproximado um pouco mais depois que ele, separado da mulher, voltou a morar com meus avós, no bairro Sagrada Família. Eu aprendia com ele, sobre poesia. A leucemia chegou de repente. Ele tocava muito bem um violão de sete cordas, "ontem ao luar, nós dois em plena solidão..."

 

O cetro

 

Quando morei no bairro Concórdia, fui ver a Guarda de Congo 13 de maio tocar na festa do Rosário. Congado me deixa os olhos rasos d'água, vejo cair as fulô, choro atoa. Ô bandeirinha, bandeirinha de papel.

Dona Isabel, centenária, vinha, Rainha Conga, com um cetro na mão similar ao do meu sonho.

 

As musas

 

Arthur Bispo do Rosário ficou a vida toda num hospício executando um trabalho a mando de Nossa Senhora e dos anjos, que ele via e escutava.

 

Raimundo Irineu Serra, negro do Maranhão que se fez soldado no Acre e depois mestre Juramidã, fundiu cristianismo e pajelança na doutrina do Santo Daime, recebeu hinos, fundou danças, farda, ensinou a fazer e a tomar o chá que mostra as coisas do Astral, tudo diretamente guiado por Nossa Senhora, a Rainha da Floresta.

 

Chico Xavier escreveu quatrocentos livros em parceria com o além e disse, certa vez, “Minha vida foi desapropriada pelo sagrado.”

 

O ofício

 

Tio Pedro colecionava vídeos de publicidade. Os mais criativos, os bem bolados, os poéticos, os edificantes, os que davam o pulo do gato. Era surfista nas ondas do pensamento positivo, das palestras motivacionais, antes ainda da publicação daquele infame livrinho, “O Segredo”. Estava aprendendo rápido a usar a rede mundial de computadores, vendia produtos Hermes, representava o boliche Del-Rey e ia construindo o Pedro Andrada, especialista em programação neurolinguística.

 

Em seu barracão no fundo da casa da vovó, onde ele veio morar depois do fim do seu casamento, fazia pequenas estátuas, torcendo talheres, tocava violão e remodelava, em sucessivas edições, sua obra poética, O lago dentro do homem. “Antigamente”, dizia, reflexivo, “havia os aedos, os skalds, os bardos, os pajés - tecedores das metáforas inaugurais das culturas, que mantinham os povos unidos; hoje, a poesia é letra morta nos livros e os poetas de verdade estão na publicidade”. E emendava com a história do porquê do ovo na mistura para bolo instantaneo: as donas de casa se sentiam culpadas, servindo um alimento que vinha pronto da indústria. Por isso, a mistura encalhava nas prateleiras, até que um sobrinho do Freud teve a ideia de retirar o ovo da mistura, para que as donas de casa tivessem de acrescentá-lo. Assim, estaria preservada a ''mão de mãe'' que faz o mistério de todo bolo. 

Meu tio vestia terno, era um homem corpudo, alto e de belos cabelos cacheados, pretos, tinha bela voz, mentia bem, mentia muito, trazia sempre engraxados os sapatos. E dentro dele havia o herói, o poeta, a identidade secreta, um ser sensível, um pai, um cantor de bossa nova, um homem barrigudo, de cueca, capaz de salvar o mundo.

 

As charadas

 

Conversava outro dia com minha avó, Mirian. Lembrávamos de umas charadas que o tio Pedro colecionava. Vó disse que ainda se lembra de muitas. Antigamente, havia um programa de rádio com essas charadas – “Charadas Elegantes”! Minha bisavó, Andreia, escutava todo dia, telefonava para o programa, decifrava todas, era craque.

 

Minha avó se lembrou de algumas:

 

Um grito alto (1, 2). Os números entre parêntesis se referem às sílabas da resposta. Os dois primeiros termos da frase são a charada, o terceiro termo, uma dica sobre a resposta. Então: Um, com uma sílaba: “Só”. Grito, com duas sílabas: “Brado”. Alto? Sobrado.

 

Branco, amarelo, verde (1, 2). Branco, com uma sílaba: “Cal”. Amarelo, com duas: “Ouro”. Verde? Calouro.

 

A mulher grafou o número com clareza (2, 1). A mulher, com duas, é “Luci”. O número: “Dez”. Clareza? Lucidez.

 

Essa, minha vó inventou: A mulher assinala o país (2, 2). A mulher: “Diná”. Assinala: “Marca”. O país? Dinamarca!

 

Falamos também sobre contar histórias, mania de família. Meu bisavô teria sido dos bons: Minha vó não se esquece das travessuras de Querubino, o bandido fujão, sempre arranjando jeitos criativos de escapar dos homens da lei. Histórias que seu pai, Melião, contava à luz dos lampiões, nas noites sem lua em Colatina.

 

Uma vez, tinha festa no presídio e Querubino arranjou um enorme foguete. Todos, prisioneiros e guardas, se reuniram para ver o foguete subir e explodir nos ares. Querubino pôs fogo no pavio e foi dizendo, “afastem-se, vai estourar, cuidado, mais para trás, mais para trás...”, e todos obedeciam, encantados. E quando ia explodir, Querubino disse, “Cuidado, tapem os ouvidos!” Deu-se o estouro, luzes no céu, fumaça. Quando o espetáculo terminou, quéde Querubino? Fugiu.

 

Minha mãe diz que se lembra de vô Melião contando como Pedro Malasartes desenterrou um osso, o fêmur de um menino, e de como, com esse fêmur, Pedro fez uma flauta. E meu bisavô tirava uma flauta escondida no bolso do casaco, tocava e os netos saíam correndo, arrepiados.

 

O galo

 

Estava lendo sobre as últimas palavras de Sócrates, antes da cicuta alcançar-lhe o coração: “Crito, devemos um galo a Asclépio. Não se esqueça de nos saldar a dívida”. Dito isso, o maior dos filósofos fechou para sempre os olhos.

 

O que o mestre quis dizer? Será que ele pensava no canto do galo que se prolonga n'outro galo e nunca cessa, como no poema do João Cabral? Ou seria um agradecimento devido ao deus pela cura da vida que é a morte?

 

Ser Pedro é escutar que tu és pedra, é saber que onde cê vai eu também vou, é fugir com a noiva, é negar Cristo três vezes, ouvir o galo cantar e terminar com uma chave na mão.

 

As musas, mais

 

Emily Dickinson, a maravilhosa poeta norte-americana que quase não saía de casa, cozinhava, cuidava, cosia, jardinava e, nos últimos trinta anos de sua vida, só se vestia de branco, deixou mais de mil poemas na gaveta, manuscritos em cadernos enfeitados com flores secas.

 

Henry Darger, soturno e esquisito faxineiro que morou 43 anos em um quarto de pensão sem receber nenhuma visita, deixou para os inquilinos encontrarem uma obra gigantesca, 15,140 páginas, o mais extenso romance americano de todos os tempos, manuscrito e ricamente ilustrado com colagens e aquarelas, intitulado A história das meninas Vivian, no que é conhecido como o reino do irreal, da tempestade de guerra glandeco-angeliniana, causada pela rebelião de escravos infantis.

 

Pedro sonhou um lago, que só ele.

 

A vida

 

Redonda como um planeta, mar,

aceito

o tubarão em meu seio.

 

Rica de corais, mar,

aceito

afogar os marinheiros.

 

*

 

Ao tio Pedro, uma charada, à guisa de libação:

 

Membro inferior fuma um de ouro (1,2).

 

Post Scriptum

 

Pequena coletânea de charadas elegantes (obrigado a Cristina Borges, Gabriel Eunápio Borges, Amana Leão, Mônica Rodrigues, Pedro e Paulo Bueno):

 

Aqui, de novo, grave, deprimido (1, 1, 2) 

 

O homem cai (1)

 

Cacete, cacete, passarinho (2, 1) 

 

Aqui na terra tem dança de guerra (1, 3)

 

Aqui oferta, se olhar, está morto (1, 1, 1) 

 

A metade de quatro com 500 dá quarenta (1,2) 

 

Da calça toda furada saiu a mulher (1,2)

 

Foi o vinho que acabou (1, 2) 

 

Tudo possuirá o felino (1, 2) 

 

O porco inglês me pertence, homem pequeno (1,1) 

 

O estabelecimento é contra vampiro e jogo (1, 2) 

 

O Astro cúbico só obedece (1, 2)

 

Sem lua ela aprende (1, 2) 

 

Ele oferece o rio ao homem (1, 2) 

 

O tom do ato bate (1, 2) 

 

Para trás, nem grande nem pequeno, te cura (1, 2) 

 

O maior sal de frutas é o árabe. (1, 2)

 

Nem sólido nem líquido, o casal é fantasma (1,1) 

 

Muita uva, terra, muita água (2, 1)

 

Cura, siga, aos pretos velhos! (2, 1)