Conversa Fiada

um conto de Pedro Lobato Moura

I.

Samuel Slater tinha 21 anos. Era um rapaz bonito, nativo de Derbyshire, Inglaterra, alto e com a testa um tanto larga. Seu semblante, sempre calmo e atento, encontrava-se naquele dia contrito, a fronde enrugada de quem medita sobre problemas complicados. Estava sentado em um bar escuro à beira do Tâmisa, esperando a hora de embarcar para os Estados Unidos da América, nação recém-nascida. Samuel esforçava-se para não chamar atenção para si, tomando sozinho uma cerveja escura, mas não conseguia evitar os movimentos de sua cabeça que acompanhava nervosamente o entrar e sair dos homens rudes do porto, as trocas de olhares entre os atendentes, os cochichos das damas da noite.

Samuel era, naquele dia de março do ano do Senhor de 1789, algo como um espião. Samuel havia trabalhado desde os 14 anos em uma oficina de tecelagem. Ali aprendera segredos da confecção das novas máquinas de tear movidas a vapor que vinham permitindo à Inglaterra se destacar como uma potência na produção mundial de tecidos. Os britânicos mantinham segredo dos detalhes de tais invenções, nenhuma daquelas máquinas podia deixar a ilha e nem mesmo os mecânicos que as construíam podiam sair. A ninguém era permitido viajar com quaisquer planos ou registros escritos daqueles mecanismos. Mas Samuel tinha muito boa memória e não precisava de projetos escritos, ele tinha tudo na cabeça, os planos decorados. Levava aqueles planos às ex-colônias e lá vislumbrava possibilidades de enriquecer que sua posição na sociedade britânica não permitiriam. Samuel tinha olhos de coruja e aninhava em sua mente os pulos de gato, os macetes que fariam o trabalho das fiandeiras americanas render cem vezes mais. Samuel fizera-se passar por um lavrador humilde, ocultando seu nome de família, conseguindo assim o lugar em um navio de Sua Majestade, de partida para a América. Tomou o último gole da cerveja, repassou mais uma vez seus lembretes mnemônicos, recomendou-se mais uma vez a manter sua invisibilidade e finalmente subiu a um quarto apertado com um colchão sarnento para repousar por um par de horas, se suas apreensões assim o permitissem.

 

Antes do raiar do dia, embarcaram todos no HMS Athena, rumo ao Novo Mundo. No último instante, logo antes que retirassem a prancha de embarque, Samuel observou um moço baixinho, amorenado, de longas barbas e bigodes, vestido à moda francesa, correndo esbaforido pelo cais, sacudindo os documentos que lhe permitiriam o embarque. Vinha seguido de um casal de criados núbios que, com enorme esforço, trazia nos braços suas muitas bolsas e valises. Enquanto o homem espalhafatoso desculpava-se pelo atraso, Samuel notou-lhe o estranho sotaque, não soube precisar a origem. Ao passar por Samuel, o pequeno homem de paletó escuro o saudou tocando de leve a aba da cartola, com uma inquietante familiaridade. Afinal, todos procuraram seus lugares. Samuel tinha direito a uma rede no canto de um aposento com outros 20 ou 30 tripulantes de mesma condição social. O curioso homem foi mais para cima, certamente fazia jus a uma cabine só para si e seus criados.

 

Entre toda a tripulação, ninguém, senão o imediato, tinha visto o capitão, mr. Henry, mas o homem tinha fama de severo. Era alguém que garantia, segundo diziam, travessias seguras, se Deus quisesse. Samuel confiava que viajaria despercebido, mais um trabalhador atolado em dívidas ou perseguido por algum senhor de terra dos interiores da Inglaterra, procurando vida nova no Novo Mundo. 

Partiram.

II.

Samuel pitava um tabaco americano, olhando para um mar agora mais calmo que nas duas primeiras semanas da viagem. Os homens escapavam para um canto coberto de lona no convés, onde era possível acender um fumo a partir das lâmpadas famintas da gordura das baleias. Samuel compunha em silêncio um poema rimado sobre detalhes de mecânica hidráulica, entremeados de referências a ovelhas, estepes rochosas e garoas. Foi quando o homenzinho se aproximou. 

 

"Boa tarde, meu caro". "Boa tarde", respondeu Samuel, um tanto surpreso. Havia quase esquecido aquela figura peculiar. "Gostei de você", disse o estranho, preparando um cachimbo. "És quieto, compenetrado, parecia-me ainda há pouco um poeta tecendo versos sobre o mar". "Sou apenas um lavrador", disse Samuel, "não sou um homem de letras. Nunca li sequer um livro". "Ora, os livros…" disse o outro, cofiando a barba e soltando fumaça pelo nariz. "Não passam de lembretes para aquele que já sabe e disparates para quem não sabe. Sócrates neles não confiava, pois eles não podem responder nossas perguntas nem mudar de opinião. Você conhece a anedota? Certa vez, o deus Toth apresentava suas invenções para o grande Amon. Quando o engenhoso deus chega finalmente à escrita, gaba-se de ter inventado um tônico para a memória dos homens. Amon, o rei dos deuses, no entanto, rebate, ora ora, uma mãe não serve mesmo para julgar suas crias; essa tua invenção será um fármaco que fará os homens julgarem que aprenderam o que de fato não sabem, enquanto esquecem o que de fato sabiam…" O homenzinho faz uma breve pausa. "Tal é a anedota..." "Mas o senhor leu isso em um livro, não foi?", retrucou Samuel e logo se arrependeu de render o assunto. O outro apenas sorriu, depois estendeu a mão para Samuel e disse, "muito prazer, me chamo José Lobo Monteiro, sou um brasileiro". Os dois homens conversavam em inglês, mas José disse seu nome e a palavra brasileiro em bom português, o que levou Samuel a perguntar, "O que é um brasileiro?" "É um português que ganha dinheiro explorando as riquezas da terra chamada Brasil; no meu caso, pedras, gemas, minerais". "Soube que os há em abundância nesse tal Brasil". "Sim, sim, mas não é empresa simples, essa de explorá-los. Falamos de uma terra selvagem, as distâncias são enormes e os indígenas, bravios". "E é verdade que os selvagens do Brasil andam nus?", pergunta Samuel, esquecendo-se por um momento de sua invisibilidade. O brasileiro lhe devolve um olhar matreiro. "É, sim", diz, com um meio sorriso. "Tal qual nossos ancestrais no Jardim do Éden". "Então, eles não tecem...", murmura Samuel. "Só arapucas". Samuel ignora o que sejam arapucas.

 

Os dois se calam por um instante, sugando seus tabacos. Samuel percebe uma mulher que se aproxima, uma mulher elegante, bonita, vestida de peles, cabelos loiros em coque. É seguida por um jovem pajem de feições mouriscas, carregando uma enorme lamparina. Ela também se achega ao recanto dos fumantes, a alguns metros de distância da dupla. Lança mão de um charuto, que o jovem prontamente acende. A madame sorri levemente para o brasileiro e vira as costas para os dois, mirando as vagas do verde mar.

 

"A elegante senhora é madame Olímpia, a vidente francesa", diz José, falando baixo, aproximando-se um pouco mais de Samuel. "Conheci-a em Paris. Já fostes a Paris?" Samuel fez que não com a cabeça. "Grande e horrorosa cidade, mas cheia de sujeitos peculiares. Anda muito agitada, ventos revolucionários sopram das terras gaulesas. Há revoltas pelos campos e o povo se organiza em torno de ideias antirégias e anticlericais. Tudo anda muito perigoso. Esses filósofos malucos e também esses cientistas ateus e suas invenções mirabolantes. A vossa Inglaterra também não está imune a tais coisas, hein, companheiro? Porém, sois em tudo mais práticos e moderados que os franceses, admito. Soube que vós ingleses agora criam máquinas movidas a vapor d'água, prodígios de mecânica; é fato?" 

 

Pronto! Sem perceber, deixando-se envolver pelas palavras fáceis daquele homem inoportuno e também pelas graciosas curvas daquela francesa, Samuel caíra na teia, na arapuca. A desconfiança de que aquele homem exótico soubesse algo sobre suas verdadeiras intenções, desconfiança que vinha, até então, como uma discreta coceira, agora estourava como catapora. Estava descoberto. O tal José desembainhava a espada, só faltava o golpe. Samuel nem mesmo poderia jogar aquele figurão no mar, pois teria a vidente e seu pajem como testemunhas. Talvez eles trabalhassem juntos. 

 

Controle-se, Samuel. 

 

"Não sei nada sobre essas invenções, meu senhor, sou apenas um lavrador. Sei que tais máquinas existem e ouço dizer que têm feito a riqueza de alguns em minha terra. Não é este o meu caso". O brasileiro gargalha, puxando a barba com a mão direita. "É claro, meu caro, eu posso imaginar. Por que outro motivo estaríamos indo para a América, senão a oportunidade, aquela que só existe em uma terra sem lei nem rei, não é mesmo? Nas franjas do mundo, em lonjuras pagãs? Eu buscava a mesma coisa, quando deixei Portugal rumo ao Brasil: Campo aberto". José desenha com um gesto um campo imaginário. "Houveramos nascido cobertos de penas, o que seria dos tecidos e das modas? Se tivéssemos uma crista sobre a cabeça, quê das coroas? Cada galo é rei no seu terreiro. Se tivéssemos esporas, quê das espadas? E de terra e capim seriam nossas mansões... Galo é rei, o resto é frango... fizeram já suas escolhas. Nós, homens, somos nada: Campo aberto."

 

Samuel fica confuso com o palavrório do homem. A francesa atira o resto do charuto no mar e se aproxima dos dois. José Lobo abre um sorriso, diz em francês, "madame…", beija a mão dela com pomposas mesuras. O coração de Samuel a ponto de explodir, ele agarra uma corda com tal força que os dedos estão brancos. Nesse momento, o imediato irrompe em gritos, "todos para dentro, homens, ao trabalho, aproxima-se um trecho perigoso, faremos manobras, onde anda aquele rato inútil do Samuel?" A francesa sorri. José diz para Samuel, "que pena, uma outra hora papearemos mais". A francesa lança no ar uma piscadela, Samuel sai tropeçando nos barris, "aqui, senhor!" "Já disse que não te quero fumando essa porcaria, se houver um incêndio, a culpa será tua!"

 

Naquela noite Samuel mal dormiu, pensando que a qualquer momento seria descoberto, posto a ferros e entregue pelo capitão às autoridades de vossa Majestade. Contudo, passaram-se os dias e nada aconteceu. Junto com as dúvidas e apreensões, turvava-lhe a mente também a lembrança das curvas da senhora francesa. Será que a veria outra vez? Nos dias que se seguiram, procurou disciplinar a mente nos detalhes de suas invenções de fiar e evitou cruzar os passos dos nobres tribulantes lá em cima. Começou a correr, entre os marujos, boato de que a vidente, algum dia próximo, iria se apresentar para o capitão. Como é costume, boatos sobre os passageiros já corriam entre os marinheiros, como os ratos corriam nos porões. Diziam que a vidente era alguém da alta nobreza francesa, fugindo por algum obscuro motivo, assassinato, talvez. Outros diziam que era uma espiã dos jacobinos, traficante de ideias revolucionárias entre os Estados Unidos e a França. Seria amiga de Ben Franklin. Sobre José Lobo, diziam que era traficante das mais variadas drogas, que era feiticeiro, que dormia na mesma cama que seu casal de escravos da Guiné, os três nus em pêlo. 

III.

 

Certa manhã, toda a tripulação foi chamada ao amplo espaço aberto do convés. Ali, sentado em uma cadeira de jacarandá toda entalhada, estava o capitão, um homem forte, barba e cabelos ruivos, olhos esverdeados, cinzentos. A maioria dos tripulantes do navio estava vendo mr. Henry pela primeira vez, incluindo Samuel. Era uma figura que inspirava respeito e um certo temor, com a barba revolta, cicatrizes no rosto e ombros largos. Estavam ali também, acomodados sob as sombras do velame, todos os passageiros ilustres. O Sr. José Lobo trouxera um enorme guarda-sol, que seus escravos núbios seguravam, e oferecia generosa sombra aos gentis homens mais próximos. O imediato subiu em um barril e anunciou: "Por cortesia do nosso nobre capitão, mr. Henry Bennet, teremos todos um divertimento especial, proporcionado pela digníssima madame Olímpia, a vidente de Paris, e seu pajem, sr. Sahid". O pajem entrou, vestido como um Aladim. Com um amplo abrir de braços saudou a plateia e tomou a palavra. "Madame viveu por muitos anos no Oriente e trouxe de lá os ritmos, as danças, os odores e os mistérios que fazem cair o queixo dos homens mais ilustrados. Antes, porém, permitam-me entretê-los com um pouco de mágica!". O rapaz moreno sacou do bolso um baralho de cartas de jogar e executou encantadores truques, que arrancaram risadas, urros, insultos e aplausos dos marinheiros. Ele encerrou sua apresentação com outra mesura, pediu silêncio com o gesto de pôr o dedo indicador em riste sobre os lábios, sentou-se numa caixa e sacou de uma sacola um tambor, um derbaque. Começou a batucar, a pele fina dava sons que estalavam nos ouvidos. Então, surgindo detrás de uma pilha de caixotes, vestida feito odalisca, de véu, coroa de flores, os trajes vermelhos deixando entrever o ventre e as pernas, madame Olímpia veio dançando a sinuosa dança oriental. Seu umbigo, como potente imã, atraía os olhares de todos os presentes. Com movimentos ora sutis, ora bruscos, a madame, de cabelos soltos e saia rodada, enchia o espaço de magia e sensualidade. Com o evoluir da dança, debaixo do sol da manhã, a madame suava, enquanto o odor do incenso transportava a todos para as terras exóticas do Egito ou da Pérsia. Samuel flutuava.

 

Com um batido mais forte do tambor, a dança terminou. Os homens estavam entorpecidos, foram saindo do transe aos poucos, aplaudindo. "Agora", disse Sahid, o pajem, "o momento mais esperado: madame Olímpia fará uma demonstração de seus poderes de vidência. Aguardai enquanto ela se concentra e põe-se em contato com os poderosos jinns, espíritos do deserto, sabedores do porvir". Sahid ruflava baixo o tambor. A mulher sentou-se numa banqueta, de olhos fechados, sua respiração foi-se acalmando até que ela, num espasmo, levantou-se, revirou os olhos e disse, "Salamaleikum!" E os homens ficaram mudos. "Preciso de um voluntário", disse Sahid. Não teve que esperar muito. José Lobo Monteiro levantou a mão, "eu!" Samuel pensou que aquilo era mais um sinal de que os dois, o brasileiro e a vidente, estavam mancomunados. Olímpia estremeceu quando Sahid conduziu José até ela. A mulher baixou a cabeça, como se lesse num tomo invisível e enfim, ergueu os olhos para o céu muito azul e entoou:

 

Dirá o poeta que o sal

Do oceano abissal é

Lágrima de Portugal

 

Que a fome de mundo é nobre

E nenhum esforço é vão

Se a alma não é pobre

 

Porém já ouvi quem diga

Que a alma necas realiza

Se vai vazia a barriga

 

A velha aqui não se engana

A lágrima do oceano

É a lágrima africana

 

E madame Olímpia desceu os olhos e fitou José.

 

Pobre lobo da montanha

Julgando caçar cabritos

Cai numa teia de aranha

 

É um homem um tanto afoito

Sabe apreciar um vinho

E nasceu no dia dezoito!

 

"É verdade!", exclamou o brasileiro, parecendo sinceramente espantado. "18 de Abril!". Muitos riram, muitos calaram, interrogantes. As rimas faziam e não faziam sentido. José parecia desconcertado. Olímpia pareceu terminar, baixou de novo a cabeça. Ouviu-se, firme, a voz do capitão. "E sobre mim? Teça algumas rimas sobre Mr. Henry, o russo."

 

A mulher tornou os olhos ao céu. A cada dramático movimento da sibila, vibravam os pequenos guizos em suas brilhantes vestes.

 

O Senhor conhece os caminhos

Os sulcos da terra e os do mar

As estrelas do céu e os corações

 

Duas terras separadas

Pelo pasto da baleia

Porém ambas bafejadas

Pelo vento da peleja

 

Esse vento afiado sopra

Em nome da liberdade

Abstrato o termo, a cabeça

Que rola é de verdade

 

E madame Olímpia, outra vez, desceu os olhos e fitou o capitão.

 

Os homens o chamam de russo

Homem do norte, mas nosso Senhor

Deus Pai quer chamá-lo de justo

 

Os homens estavam atônitos, tal a liberdade com que a mulher se referia ao apelido apócrifo do capitão. Este, no entanto, aplaudiu e deixou escapar uma gargalhada de deus do trovão. O pajem começou a ruflar de novo os tambores, baixinho. Olímpia girou a cabeça, de olhos fechados, os cabelos desarranjados cobrindo-lhe parte do rosto, e de repente parou e seus olhos miravam Samuel que era mais um marujo desalinhado ali de pé entre tantos como ele, descalço, penando sob o sol atlântico. A mulher caminhou em direção ao pobre rapaz que tanto desejava ser invisível, enquanto seus colegas de lida assistiam, expectantes, sem saber se teriam uma piada ou uma epifania.

 

Olímpia, de olhos fechados, pegou as mãos de Samuel, cheirou-as, passeou-as sobre seu rosto. Samuel sentiu-se afogar, tomado por uma onda grande demais, seus pés iam perdendo o fundo enquanto suas mãos sentiam o calor do hálito da Lilith bretã. "Ah, o que tramam essas mãos…", ela disse, mas ninguém compreendeu bem, apenas Samuel, petrificado. Olímpia bruscamente vira-se para a plateia, parece de súbito esquecer-se do rapaz. "O que é, o que é?", ela pergunta, repousando os olhos nas finas nuvens do horizonte.

 

Era uma vez um tapete

Tecido maravilhoso

Toda vez que quero vê-lo

Devo tecê-lo de novo?

 

Fez-se silêncio. Um homem de negócios, que pegava carona na sombra do guarda-sol do brasileiro, apoiando-se nos ombros da criada negra para colocar-se na ponta dos pés, gritou, "é a música!" Sem confirmar ou negar, Olímpia, com um de seus movimentos teatrais, voltou-se novamente para Samuel e vaticinou:

 

Que te chamem traidor

Não questione, ó filho meu

Nas linhas que Deus traçou

Não é pouco o teu papel

 

Oram contritos os anjos

Pedem a Deus conforto Seu

Para ti que há sete anos

Perdia o paizinho teu

 

Samuel encontrou de novo o chão de areia de seu oceano mental. Era verdade, então ele disse em alta voz, deixando mesmo brotarem algumas lágrimas, "É verdade, há sete anos morreu meu pai!" Todos irromperam em aplausos e o imediato encerrou a apresentação. Samuel agradeceu silenciosamente aos tais anjos, ao ouvir aquele comando, "de volta ao trabalho, seus sacos de estrume".

 

Tornava-se cada vez mais difícil para Samuel manter vivos na memória os detalhes do seu plano de fortuna. Tratavam-se de mínimos detalhes técnicos, mecânicos, hidráulicos, mas também de muitos outros passos, ligados ao empreendimento de começar do nada o que um dia seria chamada de indústria têxtil. Assaltavam-lhe o pensamento todo tipo de perguntas, ligadas àquelas estranhas figuras que calharam de o perseguir durante a grande travessia. Os estranhos versos da pitonisa, por vezes, lanhavam sua mente como chicotes e Samuel perguntava-se sobre o sentido de muitos deles e tentava compreender os personagens a que se referiam, se é que os poemas faziam mesmo algum sentido. Samuel não era, de forma alguma, um crente em forças espirituais. Era forçado a admitir que seria mais razoável que se tratassem de impostores, bandidos com planos de o extorquir, assim que pusesse os pés na América. E aquela charada sobre um tapete? Parece que queriam que ele soubesse, era um jogo de esconde esconde.

IV.

 

Uma forte tempestade manteve por muitos dias os marinheiros ocupados e os demais passageiros fechados em suas cabines. Ondas enormes sacudiam a embarcação. Um homem morreu de um raio fulminante. Samuel às vezes se parecia com um monge budista, concentrado, construindo teares ideais enquanto puxava e arrastava, enchia e esvaziava.

 

A tempestade passou. Certo fim de tarde, o imediato ordenou a Samuel que servisse bebidas no salão de jogos improvisado para o divertimento dos passageiros ilustres do navio. Andavam entediados. Contrafeito, Samuel tentou fazer-se de indisposto, mas o imediato não recuou. No tal salão, lá estavam, a jogar cartas, José Lobo, a madame Olímpia e mais 4 ou 5 senhores, que Samuel ignorava quem fossem. Quando Samuel chega, o brasileiro o cumprimenta como a um velho amigo, mas sem tirar os olhos das cartas. Madame Olímpia sorri, enigmática. Samuel e outros dois grumetes servem bebidas aos jogadores por algumas horas, até que eles se cansam de jogar e decidem fumar. José convida Samuel para a mesa. "Venha, venha, caro amigo, tome um trago conosco, vamos trocar histórias". Samuel quis recusar, mas os homens insistiram. Samuel tomou para si uma caneca e sentou-se.

 

"Deixem-me começar", diz um senhor de bigodes grossos e grisalhos, que esvazia seu copo de rum e começa uma narrativa, sobre quando ele fora engolido por um monstro marinho e tudo que trazia nos bolsos era uma agulha de costura. "As entranhas do bicho eram como um labirinto, eu vaguei por muitas horas, perdendo a conta dos dias e das noites, até que cheguei a uma espécie de câmara, iluminada pela luz fosforescente de estranhas algas. Ali havia uma mesa e quatro cadeiras. Três homens jogavam baralho. Eram piratas de diferentes nacionalidades, podia-se ver pelos trajes, um chinês, um mouro e um viking. Um deles me disse, "venha, venha jogar conosco", e outro, "veja, há um lugar vago, só falta você", e eu me sentei, sem pensar, comecei a jogar, recebendo cinco cartas de um baralho tão velho que parecia feito com as primeiras folhas de papel fabricadas mundo. E eu ficaria jogando ali, sabe Deus por quanto tempo, se a agulha em meu bolso não me houvesse perfurado a coxa quando fiz um movimento brusco para comprar uma carta do monte que ficava no centro da mesa. Por causa da picada, olhei para baixo e vi os reflexos dos jogadores numa poça d'água: Eram todos esqueletos, ossos apenas, vestidos de trapos rotos, os mórbidos sorrisos parados no tempo. Eu me levantei e corri pelas entranhas do bicho, gritando até perder a consciência. Fui salvo pelos japoneses que caçaram o bichão, cobriram-no de arpões e depois abriram seu ventre", realizando como que um segundo parto daquele homem de basto bigode cinza.

 

É a vez de madame Olímpia, que narra a história de Omar: "Omar era um jovem em Bagdá que era muito pobre, mas adorava os livros e frequentava uma livraria humilde em um mercado popular da Cidade Sagrada. Um dia, o dono da livraria decidiu dar de presente a Omar um tapete. No outro dia, o homem morreu, que Alá o tenha, de causas naturais. Ao mesmo tempo, Omar descobriu que seu presente era um tapete voador. Então Omar se fechava de noite em seu quarto e saía voando pela janela, no seu tapete. E fez assim por um par de anos, aprimorando seus conhecimentos de astronomia e geografia, até que em certa ocasião, Omar demorou-se no passeio pelas estrelas e quando voltou, não encontrou mais seu apartamento: Bagdá tinha sido atingida por um meteoro com a força de mil bombas. O edifício onde ele vivia com a família, e todo o bairro onde ele nasceu e cresceu, não existiam mais. Somente escombros. Omar ainda está no céu, flutuando, alimentando-se de luz, esperando o giro da roda do tempo, pois Bagdá é como um tapete de Penélope, que é sempre desfeito, apenas para ser refeito com tramas ainda mais esplendorosas".

 

"Bela história", disse alguém. Alguns já dormitavam, embalados pelo marulho e pelas vozes. José deu um gole mais profundo, limpou a garganta e tomou o bastão.

 

Narra José: "Eu venho de uma terra de minas, cheia de ouro e diamantes e ferro, infinito ferro nas entranhas. Os indígenas não se importam com cavucar, ignoram o valor dos metais, vivem como animais selvagens, alguns como onças, a maioria bugios, pacas, veados, antas e muitas aves de pena". "Eu ouvi que eles comem pessoas", interrompe o homem do bigode. "Sim, comem, comeram até mesmo um irmão meu. Esse meu irmão tinha ouvido dizer que existia um curumim, nalguma aldeia encravada no alto da serra, a chamada Serra do Espinhaço. O tal curumim não falava, era mudo, mas se lhe batiam, ele cuspia gemas, esmeraldas, turmalinas, pepitas de ouro, rubis e até mesmo diamantes. Os índios usavam dezesseis dessas gemas cuspidas pelo menino como peças de um complicado oráculo. Extraíam as pedras do menino num ritual cheio de detalhes extravagantes. Usavam as pedras até que as estrelas ordenassem, então eles descartavam-nas num fosso e batiam novamente no menino, para obter novas pedras e recomeçar o ciclo.

 

Juntamos, meu irmão e eu, uma pequena bandeira e fomos.

 

Subimos um largo rio, até que ele se encontrava com um outro, muito peculiar, um rio cor de vinho. Quanto mais subíamos seguindo seu curso, mais roxo ele ficava. Pescamos alguns peixes, também arroxeados, comemos suas carnes e ficamos embriagados. Provamos a água do rio, era vinho do bom. Então demos com uma pegada que parecia de um homem gigante, gravada na pedra, a forma de um pé. Os índios do lugar diziam que era a pegada de São Tomé, que passou pelo Brasil a caminho da Índia. É por isso que nós europeus somos tão crentes e os selvagens tão céticos, por que estes conheceram Cristo por via de São Tomé, enquanto aqueles, brancos como eu e você, conhecemos Cristo por São João, que prefere os que crêem sem ver.

 

No dia seguinte, ainda subindo o rio, demos com um pomar, mas era um pomar de mulheres! Eram árvores, árvores frutíferas, porém tinham pernas, ventre, seios, braços e rostos de mulher. Sorriam e convidavam nossos homens, com gestos e vozes melodiosas, para carícias e beijos. Havia jabuticabeiras, pitangueiras, goiabeiras, cajazeiras, cajueiras, araçazeiras, pequizeiras, ingazeiras, pitombeiras, outras mais."

 

O brasileiro narrava em seu inglês entremeado de nomes em Tupi que enchiam a imaginação dos ouvintes.

 

"Alguns homens se chegaram às mulheres-árvore, nelas se emaranhavam, aos beijos, não podiam mais ser soltos, já criavam raízes. Meu irmão, homem de fé, pregava contra elas, para os homens que ainda vacilavam ante o desejo de ceder ao apelo das belas moças dendritas - irmãos, esta é a prova de que nunca importou qual fosse o fruto da árvore do jardim, a questão sempre foi mesmo a mulher! - Então, um mameluco mais tonto desferiu um golpe de facão no galho-braço de uma sapotizeira, cujo urro pôs as copas das árvores a tremer e os pássaros e macacos a berrar. Parem com isso, gritei. Esqueçam esses que vegetam. Que Deus tenha-lhes piedade. Sigamos, ainda temos muita subida.

 

Chegamos a uma altura tal que só havia mato rasteiro, arbustos de pele dura, flores minúsculas e pedras, pedregulhos, lascas de calcário e rochas gigantescas. O céu parecia mais perto. Cachoeiras desabavam de algumas daquelas rochas enormes, avistamos uma que teria, talvez, cem metros de queda, a água virava espuma e bordava arco-íris. Então, chegamos: Nós éramos sete homens esfarrapados e exaustos, diante de um enorme paredão de rocha azulada e, no canto, acocorado, um pajé. O pajé é um tipo de rezador lá deles, que bebe Jurema e vê coisas, fuma tabaco e vira bicho. Todo enfeitado de penas, corpo pintado de jenipapo, osso de catitu na orelha. Ele ordenou que ficássemos de joelhos. Não sei bem o porquê, mas obedecemos. O pajé soprou rapé nas narinas de cada um de nós, usando uma espécie de bambu como cano. Então ele começou a crescer, o pajé foi ficando gigante. Não, éramos nós que ficávamos pequenos. Então ouvimos o índio dizer, tatuapé. Ele apontava para uma pequena fenda entre rochas, que para nós parecia uma enorme caverna. Entramos. Caminhamos pelo buraco escuro por um bom tempo, até que saímos do outro lado da montanha. Saímos no paraíso. Era um vale que, até mesmo para os padrões do Brasil, a mais fértil terra do mundo, parecia imensamente vivo: cascatas, flora, o ar, o céu, tudo era perfeito. Meninas selvagens vieram nos receber. Eram as índias mais limpas e cheirosas e bem feitas que já havíamos visto. Conduziram-nos por uma trilha até a aldeia. Era uma tribo de gente sã e pacífica. Avistamos uma estranha construção de pedra, parecia-se com um templo dos antigos  incas. Os homens do lugar nos ofereceram carne de jacu e de veado, frutas, mandioca. Araras, tucanos, micos e teiús mansos nos observavam, curiosos como os curumins. As mulheres nos faziam carinhos. Avistamos um menino correndo pelo pátio da aldeia. Ele usava um colar de pedras preciosas. Eu e meu irmão nos entreolhamos. Meu irmão achegou-se ao menino, deu-lhe um beliscão, o menino não chorou, mas cuspiu um pedaço de berilo. Olhamos em volta, seriam uns trinta nativos, uma dezena de homens adultos, mais mulheres, idosos e crianças. Com um gesto meu, nos pusemos em ação e, num minuto, matamos todos, exceto o menino. Um ancião coberto de sangue apontava para o templo... a dança… as virgens… os homens de pedra… as estrelas… o velho balbuciou e morreu.

 

Espancamos o menino até à beira da morte, juntamos muita pedra, dividimos entre nós. Vasculhamos o templo, era apenas um piso e quatro colunas de pedra, pesadas demais para terem sido carregadas e empilhadas por aqueles índios mirrados. No fundo do templo, o fosso. Era escuro, mas tínhamos certeza de que um tesouro incalculável jazia ali, na entranha da pedra.

 

Caiu a noite, fizemos fogo. Dormimos ao ar livre. Peguei no sono admirando as plêiades no céu. De madrugada, acordei de sobressalto, ouvi um grito e o som de ossos se partindo. No escuro pensei ver homens de pedra, selvagens enormes com a pele azulada como o granito, tão fortes que partiam de um só golpe um homem em dois. Acabavam de fazer precisamente isto com meu irmão. Eu tive sorte, estava mais afastado do lugar de onde os bugres de pedra surgiram, que era o rumo daquele templo. Escapei pelos matos, correndo às cegas, como corri... até que o sol do meio dia me fez perder de vez os sentidos.

 

Acordei em uma cama macia, sentindo um cheiro de café e broa de milho. Uma senhora de lusos traços me olhava com certa curiosidade e desdém. Os homens haviam me encontrado numa praia beira rio, trouxeram-me até ali, entre delírios, inconsciência e uma coceira louca, de picadas de micuim. Estávamos em uma fazenda, aos cuidados de um senhor Teixeira, criador de gado. Não te preocupes, disse a governanta em bom português, Portugal te resgatou. Sorri, amarelo. Aceitei o café. Lembrei-me, de repente, de apalpar meus bolsos. Ainda estavam ali, no saquinho de couro, as pedras".

 

Terminou assim o conto do José. Apenas Samuel e a madame Olímpia permaneciam despertos. José largou seu copo na mesa com alguma força, o bastante para despertar o restante da audiência. O homem do bigode grisalho, cujo queixo há pouco encostava no peito, despertou dizendo, "incrível história!"

 

"Sim", diz o brasileiro, "e agora, para coroar a noite, queria ouvir alguma coisa de nosso amigo Samuel". Samuel ia abrindo a boca para proferir suas desculpas, desesperado que estava para ir-se de uma vez daquele lugar, mas um grito sustou suas palavras. Veio do convés. Logo, outros gritos e ruídos de alguma briga. Todos acorreram ao lugar da confusão. Os marinheiros formavam um círculo, em cujo centro encontravam-se, de mãos e pés atados e com sangue a brotar-lhes da boca e nariz e supercílios, um marinheiro branco e o escravo preto do brasileiro. No meio da balbúrdia, a preta via tudo com muitas lágrimas no rosto, porém com os lábios cerrados, as mãos crispadas segurando os panos rudes da túnica. Os homens gritavam, "pederastas, sodomitas, pecadores, abominações", e cuspiam e davam chutes. O marujo loiro chorava, o preto olhava para o vazio, feição de ódio. Samuel viu o capitão que vinha abrindo caminho na confusão, porém José já estava no meio da roda, com um pequeno chicote de couro na mão. "Façam o que quiserem com o veado branquelo, mas esse preto é minha propriedade". José desfazia nervosamente as ataduras do africano, que não se mexia nem arredava os olhos do vazio, seria uma estátua, não fosse pelo vivo sangue que lhe descia e com o qual José parecia não se importar, sujando as mãos ao desatar os nós. Os marujos calaram-se diante da cena, o capitão chegou e também ficou olhando. José terminou de desfazer as amarras, entre resmungos, empertigou-se e disse para o preto, "venha, terminou, vamos embora". Então o homem se levantou e de repente pareceu, para Samuel, que o preto se tornava um gigante, em comparação com o baixinho José Lobo. A luz de uma lua crescente fazia a pele preta brilhar prata. O homem gritou, "Macutuê! Ê Zambi, Ô Calunga, ufolo!" E então ele correu e ninguém ousou cruzar seu caminho e ele pulou no mar. José soltou um grito murcho e caiu de joelhos.

 

Depois que o tempo parou por alguns segundos para aqueles homens que balançavam levemente no ritmo das ondas, alguns mais exaltados, aos gritos de "você não o amava? Vai junto com ele, então", agarraram o homem branco e o atiraram no mar gelado e escuro, debaixo de violências impronunciáveis. Depois todos se dispersaram, sob os gritos do imediato, enquanto o capitão e José travavam uma conversação que Samuel não pôde testemunhar.

 

Naquela noite, Samuel não dormiu. Quando fechava os olhos, imagens de violência se misturavam aos odores de suor e incenso e às danças da madame francesa. Antes do amanhecer, buscou um resto de fumo e rumou para seu cantinho de fumar. Ele fitava, no horizonte, as primeiras luzes do raiar do dia, quando avistou a silhueta de um navio. Era uma nau de guerra de Vossa Majestade que, naquele mesmo dia, no meio da tarde, já abordava o HMS Athena. Samuel viu subirem a bordo homens de traje militar, um deles coberto de insígnias, a quem o capitão saudou com uma continência. Depois Samuel, discretamente, com o esfregão e um balde nas mãos, viu estes mesmos homens escoltarem o brasileiro e também a negra e todas as malas e valises, sobre a prancha até a grande nau militar. Quando José Lobo Monteiro passou por Samuel, o inglês pôde ouvir que o brasileiro vinha recitando, "era uma vez um tapete, tecido maravilhoso, toda vez que quero vê-lo, devo tecê-lo de novo…", e quando José percebeu Samuel, não olhou diretamente para ele, mas sorriu e ficou batucando levemente na testa com o dedo indicador. Com mais uma troca de saudações britânicas, os navios se separaram e José seguiu para um destino que Samuel ignorava, enquanto ele, o jovem Samuel Slater, com mais algumas semanas deitaria os olhos em um porto da Nova Inglaterra, no Novo Mundo, América. 

 

O resto, como se sabe, é História.