Carlos

 

RIO DAS VELHAS, MEU QUINTAL

 

 

Nos anos noventa acabei me mudando para minha atual residência, onde há um extenso quintal que, no passado, me deu muito trabalho para limpar, visto que os antigos moradores não tinham um pingo de consciência do mal que estavam fazendo, jogando todo tipo de lixo nele. Na época recolhi vários sacos de entulho, havia de fogão velho a pedaços de bonecas, cacos de vidro, eram centenas de garrafas quebradas. Foram meses até eu conseguir limpá-lo, mas não foi só isso, também tive problemas com meus vizinhos que, por não limparem os quintais deles, o lixo vinha para o nosso lado.

 

Contudo, não me deixei esmorecer, porque tinha um quintal onde havia muito verde e várias árvores frutíferas como limão, bananeiras, abacateiro, um pé de café que até hoje quando está florido fica branco como a neve, que contrasta com o pé de acerola que parece pingar sangue de tão vermelho quando está carregado. Isso tudo porque tenho o privilégio de morar em uma casa com quintal grande onde ainda passa um rio no fundo, o famoso Rio das Velhas, este mesmo que tem sua nascente na Cachoeira das Andorinhas, no município de Ouro Preto, este rio que no passado eu tinha um certo orgulho de falar que morava perto dele. Ainda tinha esperança de vê-lo limpo, cheguei a sonhar que um dia poderia pescar no meu quintal. Quando no passado haviam as chuvas e as grandes enchentes, eu da janela da cozinha via descendo pelo leito do rio geladeiras, botijões de gás, infinitas garrafas pet, sacolinhas de supermercado, também já vi descerem seres vivos e mortos como porcos, bois, galinhas, cachorros, cavalos e em certas ocasiões até seres humanos, arrastados pela força das águas ou que foram mortos e jogados nas águas para apagar as provas das atrocidades humanas.

 

Eu tinha esperança de ver o rio limpo um dia, enfeitando nossa Santa Luzia, mas a cada dia que passa vejo menos água nele, as saracuras-três-potes que me acordavam às seis da manhã já não estão mais aqui no meu quintal, as capivara que eu via de vez em quando nadando no rio agora vêm aqui comer os pés de banana e de mandioca, porque já lhes falta alimento no seu habitat. Eu prefiro acreditar que ainda exista uma chance das pessoas tomarem consciência das coisas e pararem de destruir nosso meio ambiente, antes de falar que sinto vergonha de morar onde moro e dos problemas que enfrentamos.